Depois de aturadas investigações cheguei à conclusão que a grande maioria dos portugueses estão em “transe” numa enorme sessão de hipnose colectiva.
Sim, você que lê agora esta pequena crónica também!
E quais os fundamentos para esta grave afirmação?
Num país encalhado numa grave crise económica em que a retoma parece andar a anos-luz, o director-geral dos impostos vai auferir a singela quantia de 23.480 euros por mês de vencimento, enquanto que a ministra das Finanças Ferreira Leite criticou a oposição por só se preocupar com o objectivo mesquinho do salário do director.
Sim, porque realmente trata-se de um objectivo mesquinho o de falar-se de salários de quase 5.000 contos num país onde um reformado aufere uma pensão de 300 euros e deixa metade da mesma na farmácia. E ainda esta semana ouvi que é preciso ter coragem e aumentar os salários dos políticos, porque, para ter qualidade é preciso pagar-se bem a estes “representantes do povo”;
E por falar em “representantes do povo”, fiquei agastado com a nova medida proposta pelo PP (membro da coligação governamental) no sentido de que, todos aqueles que se manifestassem nas galerias da Assembleia da República ficassem com estatuto de “hooligans” e fossem impedidos de ali entrar durante certo tempo;
De forma completamente apartidária, deixo-vos uma reflexão: temos de ter cuidado com a forma com que “passamos procuração” a certas forças para governar em nosso nome. “Hooligans” ???
E o ministro de Estado e da Defesa, Paulo Portas, revelou que o Governo vai privatizar entre 35 e 65 por cento do capital da OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal. A indústria aeronáutica portuguesa vai ser privatizada até 65%?
Que outras privatizações serão feitas para amortecer o défice? Não existirão travões que parem este apetite voraz nas privatizações para criação de um défice artificial e virtual?
Nesta nação, existe a Galp (empresa “ainda” portuguesa) que vende a gasolina em Espanha a menos 17 cêntimos do que em Portugal.
Esquecidos talvez do enorme buraco financeiro que foi a “Expo 98”, deliramos com a organização do “Rock in Rio Lisboa” e com o “Euro 2004”, que, como dirão, trarão dividendos ao país mas também provocam um endividamento asfixiante para Portugal e em particular para as autarquias onde os eventos se realizarão;
Os escândalos que até agora foram notícia, casos “Casa Pia”, “Apito Dourado” passaram imediatamente ao esquecimento e o que importa agora é apoiar os nossos bravos representantes nos desafios futebolísticos que se avizinham;
E nem nos tira o sono que um treinador arrogante ganhe em 90 minutos aquilo que 5 famílias levam uma vida inteira a pagar ao banco por um T1 numa zona de construção a “custos controlados”;
O futebol é realmente o “ópio” do povo e, naturalmente, como português, vou torcer para que, pelo menos a selecção nos traga bons resultados para dar mais uma achega a este estado hipnótico em que mergulhei.